quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

ARRUDA: A FASE DO AUTISMO

Por Leandro Fortes, do Brasília, eu vi .

"Eu era repórter da Zero Hora, em Brasília, e presidente do Comitê de Imprensa do Palácio do Planalto, em setembro de 1992, quando Fernando Collor de Mello foi afastado do cargo por decisão da Câmara dos Deputados e, em seguida, exilou-se na biblioteca da Casa da Dinda, no Setor de Mansões do Lago Norte da capital federal. Setorista no Palácio do Planalto, acompanhei a agonia de Collor desde as primeiras denúncias, centradas na vida e na obra de Paulo César Farias, o PC, até a derrocada do primeiro presidente eleito depois de 21 anos de ditadura militar. De tudo que se passou naqueles tempos, o que mais me interessou foi a fase de Collor na biblioteca da Casa da Dinda. A fase do autismo.

O trauma do afastamento (o impeachment só seria votado, dois meses depois, em novembro) havia tornado a personalidade de Collor ainda mais estranha. Diariamente, ele acordava cedo, se vestia impecavelmente de paletó e gravata, se fazia acompanhar de assessores e seguranças e, então, atravessava a rua para ir à biblioteca. Isso mesmo: o cômodo não ficava na Casa da Dinda, mas numa casa menor, em frente à residência do presidente. Todo santo dia, um Collor soturno, com olhar vidrado e andar robótico, fazia aquela travessia surreal em direção a um poder imaginário. Lá, sentava em frente a uma mesa de reuniões de madeira maciça e colocava em frente a si um daqueles aparelhos elétricos antigos que matavam insetos. Por quase dois meses, quando finalmente renunciou antes de ser cassado, o presidente do Brasil fingia governar o país em meio a consultas solitárias de títulos aleatórios de livros da família ao som de pequenos estalos provocados pela eletrocutação de moscas e muriçocas. Enquanto o mundo se desmoronava a seu redor, Collor vivia, como um autista, num universo próprio e impenetrável. E dele, ao que parece, nunca mais emergiu.

Essas impressões sobre o atual senador Collor me vieram à cabeça depois de ouvir o pronunciamento do governador José Roberto Arruda, no momento em que ele anunciou sua desfiliação do DEM. Arruda virou um espectro humano desagradável, e mesmo para jornalistas experientes não deixa de ser penoso se defrontar com a manifestação física da degradação moral de um político caído em desgraça. Desmoralizado e abandonado pela raia miúda que com ele se locupletou dos maços de dinheiro que fazem a festa no Youtube, Arruda parece ter entrado naquela fase autista de Collor. Ao falar à imprensa, não estava se dirigindo ao mundo real, mas a uma existência virtual projetada em outra dimensão. Arruda decidiu que o importante agora é continuar governando o Distrito Federal e tocar as mais de mil obras em andamento, levantadas em toda parte, com vistas aos 50 anos de Brasília, a serem comemorados em 21 de abril de 2010.

Em primeiro lugar, José Roberto Arruda não governa mais o Distrito Federal. Sua última ação administrativa foi, digamos assim, a ordem dada à Política Militar para atacar, com cavalos, cães e cassetetes, dois mil manifestantes que estavam pacificamente no Eixo Monumental de Brasília. Lá, como ilustração da anarquia que virá, um coronel PM de cabelos brancos partiu como um babuíno enfurecido para cima de um estudante e rasgou-lhe a camisa. Filmado, ordenou aos PMs que jogassem gás de pimenta nos olhos dos cinegrafistas. Arruda, ao que parece, estava na residência oficial, decidindo se contratará a cantora pop Madonna ou a banda irlandesa U2 para abrir os festejos do Cinqüentenário.

Arruda não tem mais nenhum partido em sua base de sustentação e, agora, não faz parte de nenhuma sigla partidária. Em duas semanas, perdeu 12 secretários e seis administradores regionais (das cidades-satélites e do Plano Piloto). Na Câmara Legislativa, metade dos 24 deputados distritais está envolvida no Mensalão do DEM. Arruda, que costumava inaugurar até creche de boneca, não tem mais coragem de colocar o pé para fora de casa.

Vai para o Palácio do Buritinga, sede do governo, em Taguatinga, escondido pelos vidros fumê de carros oficiais, mais ou menos como Collor atravessava a rua para mergulhar no mundo encantado da biblioteca do avô.

Entrou, definitivamente, na fase do autismo. E com ele, o DEM. O Ex-PFL, ao que parece, acredita mesmo que, ao se livrar de Arruda, irá também se livrar da pecha de partido atrasado, reacionário e corrupto".

9 comentários:

Guilherme Scalzilli disse...

“Sai daí, Zé!”

Chega a ser divertido acompanhar o constrangimento da imprensa oposicionista na cobertura dos mensalões demo-tucanos. Cada novidade é acompanhada de menções aos escândalos petistas, como se todos os episódios fossem equivalentes em natureza e gravidade.
José Roberto Arruda, figura manjadíssima desde os tempos de líder do governo FHC no Congresso (ohhh!!!), será sacrificado em cerimônia pomposa, purificadora, assim que as atenções começarem a debandar para cima de seu xará poderoso. E é sempre bom lembrar que a trilha que une os Josés não passa apenas pelo prefeito Gilberto Kassab.

Luís Carlos P. Prudente disse...

O PFL quer esconder o Arruda!

Pode esconder o Arruda, mas vai aparecer o Kassab, o fantasma do ACM e o espírito malígno da UDN!

PFL será sempre PFL! Um filhote da UDN.

Vera de OLiveira disse...

Quero aderir à campanha do Scalzilli: "Sai daí, Zé!"

Azarias disse...

Estes caras, além de assumidos, são assomantes.

Anônimo disse...

Infelizmente, textos como esse ajudam a camuflar o " mal absoluto " ( nao sei onde ouvi ou li essa expressão eheheheh )

Arruda eh micuim. Estupido o suficiente para se deixar filmar como o corrupto que eh.

Paulo Otavio sim, merece admiração.

Envolvido em esquemas de corrupção desde Collor, consegue estar atrás de Arruda durante todo discurso imbecil que esse patético projeto de ser humano faz, e mesmo assim é mencionado alguns raros observadores.

Ele não é percebido mesmo estando no mesmo palanque de todos corruptos. Não se destaca; é ignorado; não existe.
Que conveniente!

Cristina Alves disse...

O Sr. Leandro Fortes já foi informado que não se pode usar o termo autismo de maneira pejorativa. Nós pais de pessoas autistas não queremos ter que trocar a denominação do diagnóstico dos nossos filhos como tiveram que fazer do dianóstico síndrome de down, porque o termo vira ofensa e aí como ficam os que realmente tem autismo?
Diversos autistas estão na internet, inclusive meu filho. Eles tem tendência a depressão e serão mais empurrados a isso ao lerem coisas horríveis como essa. Se o Sr. Leandro é jornalista tem que aprender a escrever sem utilizar de preconceitos. Em Portugal fizeram até uma lei para evitar o mau uso do termo autismo/autista. Será que aqui também teremos que fazer isso?
Não adianta a desculpa que é metáfora, que não teve a intenção. Já pensou se vira moda e os amiguinhos do meu filho começam a se ofender utilizando o termo autista. Como ficará a cabeça dele? A Auto-estima dele? Já é difícil conviver com as dificuldades que o autismo impõe, principalmente porque as pessoas não sabem o que é autismo e não o entendem, agora vamos dificultar mais a vida deles?
Aguardo resposta.

Anônimo disse...

Que bom que você está tendo esta impressão, a de que ele está realmente fora do governo, só falta renunciar, e é bom que também vá junto com ele parte do DEM.
Acho que está demorando é a PF mostar para o país que o governo de São Paulo também esta atolado nesta falcatruas.

DANIEL disse...

O ARRUDA AJUDOU A YEDA ?? COMO ?? POLICIA DO DF AFOGOU O "CAVALCANTE" EM CONLUIO COM A GOVERNADORA E A MÍDIA ?? QUE SABE E CALOU ??

PARAGUASSÚ disse...

DEVEMOS ESTAR EM ALERTA DAS INVESTIDAS DA DIREITA !!